Bloqueio de transmissão da dengue: raio, ciclos, prazos e equipamentos
Por Equipe técnica Maxmaq · Publicado em · Atualizado em
O que é bloqueio de transmissão
Bloqueio de transmissão é a aplicação de inseticida em ultra baixo volume (UBV) em volta dos casos notificados. O objetivo é reduzir os mosquitos adultos da área e interromper a cadeia de transmissão. Outros nomes para a mesma ação: bloqueio de casos, bloqueio vetorial e bloqueio químico.
A nota técnica do Ministério da Saúde para o Cielo-ULV (NT 1/2020) limita o uso do produto ao bloqueio e ao controle de surtos e epidemias. Ela avisa que a pulverização só atinge o adulto em voo e que, mesmo em condições ótimas, não elimina todos os mosquitos.
Atenção: o bloqueio vem junto do Bloqueio Focal: eliminação de criadouros e tratamento larvário nos que não podem ser removidos. Em Minas Gerais, se passarem mais de 7 dias entre os dois, o controle dos criadouros se repete (POP 03, SES-MG, 2024).
Quando fazer
Faça o bloqueio quando houver caso notificado em área com sinal de transmissão, e não como rotina. O Plano de Contingência Nacional de 2025 pede adulticida de forma racional, em clusters de transmissão, como medida complementar em cenário epidemiológico grave e preferencialmente com equipamento portátil.
Os estados detalham os gatilhos:
- Minas Gerais: UBV intradomiciliar quando o LIRAa/LIA passa de 3,9%, nos primeiros casos suspeitos de chikungunya ou Zika, ou com sorotipo de dengue ausente do território há três anos (POP 01, 2024).
- Mato Grosso: fora do período epidêmico, novo caso suspeito já permite bloqueio; para UBV com repetição de ciclos, exige critérios cumulativos de infestação, incidência e gravidade (Portaria 616/2024).
- Sergipe: para UBV pesado, incidência de 100 casos por 100 mil habitantes e IIP acima de 1% (SES-SE, 2025).
Com ovitrampas em alta, a Nota Técnica 3/2025 prevê nebulização espacial com UBV mediante notificação de casos, junto de controle mecânico e residual.
Qual o raio e a área do bloqueio
O raio é de no mínimo 150 m a partir do caso notificado, pela NT 1/2020. A mesma nota manda agrupar casos próximos no tempo, preferencialmente em até duas semanas, na mesma área de atuação.
Mato Grosso converte o raio em até 9 quarteirões no entorno. Minas Gerais conta os 150 m a partir do Local Provável de Infecção (LPI), que pode ser a casa, o trabalho ou outro lugar frequentado pelo caso (NT 1/2025, SES-MG).
Atenção: o raio de 300 m de materiais antigos vem da delimitação de foco. No manual da Funasa de 2001, 300 m valem para localidade não infestada; o bloqueio pedia no mínimo nove quarteirões em torno do caso.
Ciclos e intervalos
A NT 1/2020 prevê 3 ou 5 ciclos de aplicação espacial na mesma área, com intervalo de três a cinco dias. Após avaliação, e se necessário, vêm mais 2 ciclos. O fluxo abaixo resume a decisão.
O diagrama parte do caso suspeito notificado, delimita a área com raio mínimo de 150 m e aplica o primeiro ciclo. Repete a cada 3 a 5 dias até 3 ou 5 ciclos. Se a transmissão continua, soma até 2 ciclos após avaliação; se não, encerra o bloqueio e mantém a vigilância.
Os documentos estaduais variam. Confira o seu:
| Documento | Ciclos e intervalo |
|---|---|
| NT 1/2020, Ministério da Saúde | 3 ou 5 ciclos, a cada 3 a 5 dias; mais 2 após avaliação |
| NT 1/2025, SES-MG (UBV costal) | pelo menos uma aplicação, em um único ciclo |
| POP 03, SES-MG (UBV veicular) | 4 ciclos diários, ou ciclos a cada 3 a 5 dias; mínimo de duas semanas |
| Portaria 616/2024, SES-MT | pelo menos uma aplicação; repetição de ciclos só com critérios cumulativos |
O esquema diário do POP 03 acompanha o ciclo gonotrófico do Aedes aegypti, de cerca de quatro dias.
Quanto tempo depois do caso começar
Em Minas Gerais, preferencialmente entre 3 e 7 dias após o início dos sintomas do caso suspeito, conforme a data no SINAN. A nota federal de 2020 não fixa esse prazo, então use o do seu estado.
O motivo prático é a oportunidade. O estudo de Kawiecki e colegas (2024), com aplicação interna em Iquitos, no Peru, estimou que o efeito da aplicação cai pela metade cerca de 28 dias depois, sem efeito cumulativo entre aplicações seguidas. O estudo é de aplicação interna com piretroide, em outro país, e serve de referência, não de regra.
Equipamentos e rendimento
UBV veicular
Reserve o veicular para disseminação viral, transmissão sustentada e epidemia, depois de tratamento focal e UBV portátil. O POP 03 de Minas Gerais não indica o método em áreas muito verticalizadas e arborizadas, nem com grande fluxo de veículos.
Parâmetros do Ministério da Saúde e do POP 03: 15 km/h, vazão de 70 a 75 mL/min e gotas de 15 a 20 µm. Planeje áreas de cerca de 3 horas de trabalho, em média 80 quarteirões. O rendimento da Portaria 616/2024 é de 80 a 120 quarteirões por máquina por dia, em dois turnos. Para entender o equipamento, veja UBV pesado veicular.
UBV portátil e bloqueio intradomiciliar
O costal motorizado segue 3,2 km/h e vazão de 16 a 20 mL/min na NT 1/2020. Minas Gerais prioriza o portátil nas fases iniciais, pela melhor penetração da névoa nos abrigos do mosquito. O anexo de Mato Grosso traz 28 quarteirões por dupla de agentes por dia no externo e 70 imóveis por agente por dia no intradomiciliar e peridomiciliar.
Exemplo: com 9 quarteirões por bloqueio e 80 quarteirões por máquina por dia, uma máquina cobre 8 bloqueios completos por ciclo (80 ÷ 9 = 8,9). Em 3 ciclos, são 27 quarteirões por bloqueio. Premissas: casos distantes entre si e o rendimento mínimo da portaria; áreas que se sobrepõem rendem mais.
Se o município não tem máquina suficiente, a locação de equipamentos UBV cobre o pico de casos.
Como planejar a operação
Notificação e localização dos casos
Cruze as notificações do SINAN com a data de início dos sintomas e localize o LPI. Mapeie o caso e os quarteirões do raio. Agrupe casos próximos no tempo em uma única área, como prevê a NT 1/2020.
Rota e horários
A NT 1/2020 indica cerca de 2 horas antes e depois do nascer e do pôr do sol. Minas Gerais fixa 6h às 9h e 16h às 20h, sem chuva e com vento até 15 km/h. No veicular, o veículo contorna cada quarteirão antes de passar ao seguinte, com o bocal a 45° da rua, voltado aos imóveis. No intradomiciliar, o morador sai e só volta depois do tempo definido no POP do produto em uso.
Registro da aplicação
Registre o volume de inseticida consumido e o rendimento em quarteirões por turno, nos boletins de campo. Depois, acompanhe semanalmente a incidência da localidade, pelo diagrama de controle ou pelo SINAN, para decidir sobre ciclos extras.
Na prática: ficha por bloqueio com data de início dos sintomas, data de cada ciclo, quarteirões, produto e litros. Ela serve ao fiscal do contrato e à prestação de contas.
Em resumo
- O raio mínimo é de 150 m a partir do caso (NT 1/2020); o de 300 m do manual de 2001 se refere à delimitação de foco.
- A nota de 2020 prevê 3 ou 5 ciclos a cada 3 a 5 dias; estados descrevem o bloqueio portátil em um ciclo.
- Em Minas Gerais, a ação começa de preferência entre 3 e 7 dias após os sintomas.
- O rendimento de referência do UBV acoplado é de 80 a 120 quarteirões por máquina por dia.
- Os parâmetros seguem o Ministério da Saúde e os estados podem ter regra própria; confira a do seu.
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Perguntas frequentes
Qual o raio do bloqueio de transmissão?
No mínimo 150 m a partir do caso notificado, segundo a Nota Técnica 1/2020 do Ministério da Saúde. Mato Grosso traduz esse raio em até 9 quarteirões no entorno. O manual de 2001 pedia, para o bloqueio, no mínimo nove quarteirões em torno do caso.
Quantas aplicações são feitas no bloqueio?
Depende do documento. A nota de 2020 prevê 3 ou 5 ciclos na mesma área, com intervalo de 3 a 5 dias, e mais 2 ciclos se a avaliação indicar. Minas Gerais e Mato Grosso descrevem o bloqueio com equipamento portátil em pelo menos uma aplicação.
Quanto tempo depois do caso o bloqueio deve começar?
Em Minas Gerais, preferencialmente entre 3 e 7 dias após o início dos sintomas do caso suspeito, conforme a data registrada no SINAN. O Ministério da Saúde não fixa esse prazo na nota de 2020, e outros estados podem ter regra própria.
Quantos quarteirões uma máquina faz por dia?
A Portaria 616/2024 de Mato Grosso traz de 80 a 120 quarteirões por máquina por dia para o UBV acoplado, em dois turnos. Para o portátil, o mesmo anexo prevê 28 quarteirões por dupla de agentes por dia na aplicação externa.
Fontes
- Nota Técnica 1/2020-CGARB/DEIDT/SVS/MS (inseticida Cielo-ULV), Ministério da Saúde, 2020
- POP 01: aplicação espacial intradomiciliar a UBV, SES-MG, 2024
- POP 03: aplicação espacial com UBV veicular, SES-MG, 2024
- Nota Técnica 1/SES/SUBVS-SVE-DVDTI-CEVARB/2025: metodologias e tecnologias de controle vetorial para arboviroses, SES-MG, 2025
- Portaria 616/2024/GBSES (UBV pesado), SES-MT, 2024
- Plano de Contingência Nacional para Dengue, Chikungunya e Zika, Ministério da Saúde, 2025
- Nota Técnica 3/2025-CGARB (ovitrampas), Ministério da Saúde, 2025
- Nota informativa: critérios para solicitação de UBV pesada, SES-SE, 2025
- Dengue: instruções para pessoal de combate ao vetor, Ministério da Saúde e Funasa, 2001
- Spatial and temporal analysis on the impact of ultra-low volume indoor insecticide spraying on Aedes aegypti household density, Parasites & Vectors, 2024
