Manejo integrado de vetores (MIV): o que é, os pilares da OMS e onde entra o fumacê
Por Equipe técnica Maxmaq · Publicado em · Atualizado em

O que é manejo integrado de vetores?
Manejo integrado de vetores (MIV) é, nas palavras da OMS, um processo racional de decisão para o uso ótimo dos recursos de controle de vetores. A definição vem do Handbook for Integrated Vector Management, de 2012.
O ponto central é a decisão. O MIV não é um produto nem uma máquina: é a regra de escolher a intervenção com base em evidência local e combinar as que se complementam.
A OMS lista cinco elementos:
- mobilização social, regulação e participação da comunidade;
- colaboração entre setores;
- integração de métodos químicos e não químicos;
- decisão baseada em evidência, com pesquisa operacional e vigilância;
- formação de pessoal e carreira técnica nos níveis nacional e local.
Os métodos químicos fazem parte da lista, inclusive larvicidas e aplicações espaciais. A condição que a OMS põe é o manejo correto dos praguicidas de saúde pública.
O que a resposta global da OMS prevê para 2017 a 2030?
A Resposta Global de Controle de Vetores 2017-2030 tem quatro pilares e dois fundamentos. A Assembleia Mundial da Saúde a recebeu em maio de 2017, na resolução WHA70.16, que pede aos países estratégias e planos nacionais alinhados a ela.
| Componente | O que pede |
|---|---|
| Pilar 1 | Fortalecer a ação e a colaboração entre setores e dentro do setor saúde |
| Pilar 2 | Engajar e mobilizar as comunidades |
| Pilar 3 | Ampliar a vigilância de vetores e o monitoramento e a avaliação das intervenções |
| Pilar 4 | Ampliar e integrar ferramentas e abordagens |
| Fundamento 1 | Fortalecer a capacidade e a competência em controle de vetores |
| Fundamento 2 | Ampliar a pesquisa básica e aplicada e a inovação |
A meta, segundo a OMS, é reduzir a incidência em pelo menos 60% e a mortalidade em pelo menos 75% até 2030, além de prevenir epidemias em todos os países. As páginas consultadas não informam o ano-base da comparação.
Na prática: o pilar 3 é o que liga o MIV ao dia do município. Sem vigilância (casos, LIRAa, ovitrampas), a decisão deixa de ser racional.
Quanto pesam as doenças transmitidas por vetores?
Elas respondem por mais de 17% das doenças infecciosas e causam mais de 700 mil mortes por ano, conforme a ficha técnica da OMS, atualizada em 2024.
Na dengue, mais de 3,9 bilhões de pessoas, em mais de 132 países, vivem em área de risco. A mesma ficha cita a proteção domiciliar, como telas, entre as medidas de prevenção.
Como o MIV aparece no plano do Ministério da Saúde?
O Plano de ação para redução da dengue e de outras arboviroses 2024/2025 organiza as ações em seis eixos:
- prevenção;
- vigilância;
- controle vetorial;
- organização da rede assistencial e manejo clínico;
- preparação e resposta a emergências;
- comunicação e participação comunitária.
No eixo de controle vetorial, o plano prevê estações disseminadoras de larvicida (EDL) nas áreas mais vulneráveis, ampliação da borrifação residual intradomiciliar em áreas de alta circulação de pessoas e uso substancialmente maior do método Wolbachia. Veja como funcionam as estações disseminadoras de larvicida.
A Nota Informativa 29/2024 acrescenta a lógica de manejo da resistência. Ela recomenda o uso de inseticidas em mosaico, isto é, rotação ou uso simultâneo de classes diferentes em áreas ou períodos distintos, para retardar a resistência. O texto também registra preferência por larvicida biológico, para reduzir a pressão de seleção.
O que funciona no nível da casa e do bairro?
As medidas sobre o ambiente e a casa são as que têm o melhor sinal nos estudos, mas a evidência é limitada. Na meta-análise de Bowman, Donegan e McCall (2016), dois resultados chegaram a OR de 0,22 para dengue:
| Intervenção | OR (IC 95%) |
|---|---|
| Tela nas casas | 0,22 (0,05 a 0,93) |
| Manejo ambiental comunitário combinado com tampa em recipientes de água | 0,22 (0,15 a 0,32) |
| Borrifação residual intradomiciliar | 0,67 (sem efeito significativo, p = 0,50) |
OR abaixo de 1 indica menor risco de dengue nos grupos que receberam a intervenção. O intervalo largo da tela mostra pouca certeza.
Atenção: os autores falam em “escassez notável de evidência confiável” para qualquer método de controle de vetores da dengue. Dos 19 estudos de incidência, só 2 eram ensaios randomizados, e nenhum mostrou efeito estatisticamente significativo. Leia os números como indício, não como garantia.
Onde entram o controle químico e o UBV?
O controle químico entra depois das medidas não químicas, e o UBV, no bloqueio de transmissão. A Nota Informativa 29/2024 pede o uso racional do controle químico. Ela indica larvicida só onde não foi possível remover ou vedar os depósitos e manda empregar o adulticida a UBV nas atividades de bloqueio de transmissão.
A Nota Técnica 15/2023 é mais restritiva: o uso é indicado apenas em situações emergenciais, quando as demais alternativas foram insuficientes para conter a transmissão. A mesma nota reforça que vigilância e controle sejam feitos de forma integrada.
O diagrama mostra um ciclo. A vigilância (casos, LIRAa e ovitrampas) alimenta uma decisão com base em dados. Dela saem quatro frentes: manejo ambiental, com eliminação de criadouros; novas tecnologias, como EDL e Wolbachia; controle químico, com larvicida e UBV em bloqueio; e comunicação e mobilização. Todas passam por avaliação, e o resultado volta à vigilância.
O UBV, portanto, é uma peça do MIV, sem substituir as demais. A análise do que dizem o Ministério da Saúde e os estudos sobre o fumacê detalha o que se sabe sobre o efeito dele nos mosquitos adultos. Nenhuma fonte desta página promete redução garantida de casos com uma única medida.
O que o município precisa ter para fazer MIV?
Esta seção é síntese da Maxmaq a partir dos documentos citados acima, e não uma norma. Serve como lista de conferência para a gestão:
- Vigilância que gera dado: levantamento de índices e armadilhas com rotina, para decidir onde agir.
- Responsável pela decisão: alguém que cruze casos e índices e registre por que escolheu cada intervenção.
- Medidas não químicas em rotina: remoção e vedação de depósitos, com participação da comunidade e de outros setores.
- Plano de manejo da resistência: rotação de inseticidas em mosaico, conforme a Nota Informativa 29/2024.
- Frota pronta para o bloqueio: equipamentos revisados e aferidos antes da temporada, para o UBV funcionar quando for indicado.
- Avaliação registrada: cada ciclo de ação termina com um resultado que volta para a vigilância.
Na prática: quando o equipamento de UBV é o único item da lista que existe, o município está fazendo controle químico, e não MIV.
Em resumo
- A OMS define o MIV como processo racional de decisão, e a decisão depende de vigilância.
- A resposta global 2017-2030 tem 4 pilares e 2 fundamentos, com meta de 60% menos incidência e 75% menos mortalidade até 2030.
- No Brasil, o Ministério da Saúde manda priorizar as medidas não químicas e girar inseticidas em mosaico.
- O UBV é complementar e se reserva ao bloqueio de transmissão, sem promessa de resultado isolado.
- A evidência sobre cada método é limitada, e a avaliação local é parte do ciclo.
Para preparar os equipamentos que entram no bloqueio, veja o serviço de preparação da frota para o controle do Aedes.
Perguntas frequentes
O que é manejo integrado de vetores?
É um processo racional de decisão para usar da melhor forma os recursos de controle de vetores, segundo a OMS. O gestor decide com base em dados de vigilância e combina intervenções químicas e não químicas, em vez de depender de uma só. O Handbook for Integrated Vector Management da OMS (2012) detalha o método.
O fumacê faz parte do manejo integrado de vetores?
Sim, como controle químico complementar. A Nota Informativa 29/2024 do Ministério da Saúde diz que o UBV com adulticida deve ser empregado no bloqueio de transmissão, e a Nota Técnica 15/2023 o indica apenas em situação emergencial, quando as outras alternativas não bastaram.
Qual é a meta da OMS para 2030?
A Resposta Global de Controle de Vetores 2017-2030 prevê reduzir a mortalidade por doenças transmitidas por vetores em pelo menos 75% e a incidência em pelo menos 60% até 2030, além de prevenir epidemias em todos os países. A OMS e a Assembleia Mundial da Saúde de 2017 apresentam esses números sem informar o ano-base na página consultada.
Qual medida mais reduziu o risco de dengue nos estudos?
Na meta-análise de Bowman e colegas (2016), a tela nas casas e a combinação de manejo ambiental comunitário com tampa em reservatórios tiveram OR de 0,22 cada. Os próprios autores alertam que a evidência é frágil: só 2 dos 19 estudos de incidência eram ensaios randomizados.
Fontes
- Global Vector Control Response 2017-2030, OMS, 2017
- Handbook for Integrated Vector Management, OMS, 2012
- Vector control (Control of Neglected Tropical Diseases), OMS, 2024
- Seventieth World Health Assembly update, 30 May 2017, OMS, 2017
- Vector-borne diseases (fact sheet), OMS, 2024
- Plano de ação para redução da dengue e de outras arboviroses 2024/2025, Ministério da Saúde (cópia da SES-MG), 2024
- Nota Informativa 29/2024-CGARB (manejo da resistência do Aedes aegypti), Ministério da Saúde (cópia da SES-MG), 2024
- Bowman, Donegan e McCall (meta-análise de controle do Aedes), PLoS Neglected Tropical Diseases (Spiral, Imperial College), 2016
- Nota Técnica 15/2023-CGARB, Ministério da Saúde (cópia da SES-GO), 2023
