Estações disseminadoras de larvicida e armadilhas para Aedes: o que a evidência mostra
Por Equipe técnica Maxmaq · Publicado em · Atualizado em

O que é e como funciona a estação disseminadora de larvicida?
A EDL é um recipiente que atrai a fêmea de Aedes e a contamina com larvicida. A Nota Informativa 25/2024 do Ministério da Saúde descreve recipientes impregnados com reguladores de crescimento de insetos, cujas micropartículas em pó aderem ao corpo do mosquito.
A fêmea de Aedes visita muitos criadouros e põe poucos ovos em cada um. Por isso ela deixa o larvicida em reservatórios que a equipe de campo não achou, num raio aproximado de 3 a 400 metros, segundo a mesma nota. A água contaminada impede que parte das larvas chegue à fase adulta.
O diagrama mostra quatro passos em sequência: a fêmea visita a estação, contamina-se com piriproxifeno, visita outros criadouros num raio de 3 a 400 metros e, nesses criadouros, mais larvas e pupas morrem.
Atenção: a EDL age em larvas e pupas. Ela não mata o mosquito adulto já infectado, e por isso não serve de resposta única a um surto.
Onde o Ministério da Saúde indica a EDL?
O Ministério da Saúde indica a EDL para áreas e imóveis em que o agente de endemias tem dificuldade de achar ou tratar o criadouro. A Nota Informativa 25/2024 lista os usos:
| Situação | Uso indicado |
|---|---|
| Predomínio de criadouros A2, B e D (levantamento LIRAa ou LIA) | Temporário |
| Criadouros crípticos ou em locais inacessíveis, inclusive prédios fechados | Permanente |
| Aglomerados subnormais e áreas de difícil acesso com persistência de ovos ou larvas | Permanente |
| Pontos estratégicos e imóveis de acumuladores e catadores de recicláveis | Permanente |
A Nota Técnica 1/2025 da SES-MG repete essas indicações para municípios com mais de 100 mil habitantes.
Como o Ministério da Saúde está implantando a EDL?
A implantação começa em 15 cidades, com acompanhamento do Ministério da Saúde e da Fiocruz. A nota de 2024 diz que a seleção inicial considerou população acima de 100 mil habitantes, notificações de dengue, chikungunya e Zika nos dois últimos anos, infestação por Aedes aegypti, equipe de campo disponível e interesse do gestor.
Municípios fora da lista podem começar por conta própria, se seguirem as recomendações da nota e o curso da Fiocruz. O fluxo é este:
- Gestor manifesta interesse.
- Município pactua um acordo de cooperação técnica.
- Estratégia é validada com a secretaria estadual e o Ministério.
- Equipe faz as capacitações.
- Implantação é acompanhada e monitorada.
Na prática: a nota trata a estratificação de risco intramunicipal como pré-requisito e considera desejável o monitoramento com ovitrampas em todo o município. Sem esses dois dados, o município não tem como mostrar se a EDL funcionou.
O que os estudos mostram?
Os estudos mostram efeito claro sobre larvas e pupas e, em Belo Horizonte, sinal de queda de casos de dengue. Nenhum deles mostra efeito que dure sem manutenção das estações.
| Estudo | O que mediu | Resultado |
|---|---|---|
| Manaus, 2015 | 100 estações em cerca de 7 ha, por 4 meses, em bairro de cerca de 50 ha | Até 94,3% dos criadouros-sentinela contaminados; mortalidade de imaturos de cerca de 4% para cerca de 75% |
| Rio de Janeiro, 2020 | Duas formulações, 500 estações por área, 13 meses | Líquida reduziu a positividade de ovitrampas em 8 meses; sem as estações, as áreas voltaram a ficar iguais |
| Belo Horizonte, 2025 | 2.481 estações em 9 bairros, com manutenção mensal, de 2017 a 2019 | Queda líquida média de 29% na incidência de dengue nos bairros tratados e de 21% nos vizinhos |
O ensaio de Belo Horizonte não foi randomizado: comparou antes e depois, com áreas-controle. Os autores falam em cobertura incompleta e em diluição do efeito, e concluem que a técnica é promissora como ferramenta adicional.
Em Manaus, os próprios autores registram que não mediram o piriproxifeno na água dos criadouros. A contaminação foi inferida pela mortalidade das larvas.
Antes desses resultados, uma revisão sistemática de 2017 achou evidência fraca de redução de casos humanos de dengue com piriproxifeno, em apenas dois estudos. Resistência ao produto também já foi relatada.
Exemplo: em Manaus, 100 estações em cerca de 7 hectares dão cerca de 14 estações por hectare. Esse número descreve o estudo, não uma norma. A densidade do seu município depende da estratificação de risco e do manual do Ministério da Saúde.
Armadilhas de mosquito adulto funcionam?
Armadilhas de adultos em massa têm evidência limitada, e a EDL não deve ser confundida com elas. Dois ensaios randomizados em Manaus testaram o método com resultados modestos:
- Armadilha de captura em massa, 12 aglomerados: reduziu fêmeas de Aedes aegypti nos 5 primeiros meses chuvosos, sem efeito significativo sobre a dengue.
- Armadilha adesiva: não reduziu a abundância do mosquito. A adesão foi de 51,1% dos domicílios, e 86,4% dos moradores disseram perceber menos mosquito. Os autores recomendam essa armadilha apenas para monitoramento.
A diferença entre percepção e medida é o ponto de atenção para o gestor. Morador satisfeito não substitui índice entomológico.
A EDL substitui o fumacê?
Não. A EDL age nas fases aquáticas e o UBV age no adulto. A Nota Técnica 15/2023 indica a aplicação espacial a UBV só em situações emergenciais, para bloqueio de casos, quando as outras alternativas foram insuficientes. Veja quando o fumacê funciona e como as medidas se somam no panorama das arboviroses.
Em resumo
- A EDL leva piriproxifeno a criadouros num raio aproximado de 3 a 400 metros e age em larvas e pupas.
- O Ministério da Saúde indica a EDL para criadouros A2, B e D, criadouros crípticos, áreas de difícil acesso e imóveis de acumuladores.
- Há evidência de menos imaturos e, em Belo Horizonte, de menos casos de dengue; o efeito depende da manutenção das estações.
- Armadilhas de adultos em massa não têm evidência que sustente seu uso como controle.
- EDL e UBV têm funções diferentes e entram juntos no manejo integrado.
A Maxmaq atua no controle de Aedes com equipamentos UBV, para a etapa de controle do adulto.
Perguntas frequentes
Como funciona a estação disseminadora?
A fêmea de Aedes é atraída ao recipiente e as partículas de piriproxifeno em pó aderem ao seu corpo. Ao pousar em outros reservatórios para pôr ovos, ela deixa o larvicida na água. A Nota Informativa 25/2024 do Ministério da Saúde indica um alcance aproximado de 3 a 400 metros.
Quantas estações por área?
Não há número único. No estudo de Manaus, foram 100 estações em cerca de 7 hectares, ou seja, cerca de 14 por hectare. A nota do Ministério da Saúde diz que a densidade maior (estações mais próximas) cabe às áreas de alto risco, definidas por estratificação de risco intramunicipal.
A EDL substitui o fumacê?
Não. A EDL age nas fases aquáticas, larva e pupa, e a aplicação espacial a UBV age no mosquito adulto. O Ministério da Saúde reserva o UBV a situações emergenciais, para bloqueio de casos, e pede que as ações de controle sejam integradas.
Armadilha de captura em massa de adultos controla o Aedes?
A evidência é fraca. Em Manaus, um ensaio com armadilha de adultos reduziu fêmeas só nos 5 primeiros meses chuvosos, sem efeito significativo em dengue. Outro, com armadilha adesiva, não reduziu a abundância do mosquito. Para essas armadilhas, os autores indicam o uso em monitoramento.
Fontes
- Nota Informativa 25/2024-CGARB/DEDT/SVSA/MS (implementação de estações disseminadoras de larvicidas), Ministério da Saúde, 2024
- Mosquito-Disseminated Pyriproxyfen Yields High Breeding-Site Coverage and Boosts Juvenile Mosquito Mortality at the Neighborhood Scale (Abad-Franch et al.), PLoS Neglected Tropical Diseases, 2015
- Mosquito-disseminated pyriproxyfen for mosquito-borne disease control in Belo Horizonte, Brazil: a pragmatic, before-after control-intervention paired-series trial (Abad-Franch et al.), The Lancet Infectious Diseases, 2025
- Assessing the efficacy of two new formulations of larvicide pyriproxyfen for the control of Aedes aegypti using dissemination stations, Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, 2020
- Community effectiveness of pyriproxyfen as a dengue vector control method: a systematic review, PLoS Neglected Tropical Diseases, 2017
- Nota Técnica 1/2025 (metodologias e tecnologias de controle vetorial para arboviroses), SES-MG, 2025
- Evaluation of the effectiveness of mass trapping for dengue vector control: a cluster randomized controlled trial in Manaus, Brazil (Degener et al.), Journal of Medical Entomology (Arca/Fiocruz), 2014
- Mass trapping with sticky traps does not reduce Aedes aegypti abundance (Degener et al.), Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, 2015
- Nota Técnica 15/2023-CGARB (inseticidas para aplicação espacial a UBV), Ministério da Saúde (cópia da SES-GO), 2023
