Ovitrampas: como montar, onde instalar e como calcular IPO, IDO e IDV
Por Equipe técnica Maxmaq · Publicado em · Atualizado em

O que é ovitrampa e para que serve
Ovitrampa é uma armadilha de oviposição: atrai a fêmea do Aedes aegypti (e do Aedes albopictus) para pôr ovos numa palheta, e os ovos são contados depois. A Nota Técnica 3/2025 do Ministério da Saúde a descreve como método sensível, econômico e de fácil manuseio no campo.
Os usos citados na nota:
- detectar a introdução do mosquito em áreas não infestadas;
- monitorar a densidade da população em áreas infestadas;
- avaliar o efeito das ações de controle, antes e depois da intervenção;
- apoiar o monitoramento da resistência a inseticidas.
A nota recomenda implantar ovitrampas em todo o município. Ela também lista o que o município precisa ter: agentes de endemias para instalar e supervisionar, equipe de entomologia para a bancada, sala para higienizar e secar palhetas, lupa estereoscópica e veículo para o recolhimento em tempo hábil.
Materiais e montagem
A ovitrampa leva um recipiente preto, uma palheta e um atrativo. Os dados abaixo vêm da NT 3/2025.
| Item | Especificação |
|---|---|
| Recipiente | Plástico preto, boca larga, até 1 litro, com orifício lateral que limita a água a 500 mL |
| Palheta | Madeira aglomerada (Eucatex), 15 cm por 2,5 cm, presa com clipe, lado áspero para o centro |
| Água | 300 mL de água limpa |
| Atrativo | 1 mL de levedo de cerveja a 0,04% |
Prepare as palhetas pelo menos 2 dias antes da instalação. Deixe-as 24 horas de molho em água limpa para tirar a serragem e depois seque por completo.
Para o atrativo, dissolva 6 g de levedo (cerca de duas colheres de sopa) em água limpa até 50 mL, num tubo graduado, e transporte em frasco fechado.
Atenção: o manual anterior do Instituto Oswaldo Cruz e do Ministério da Saúde descreve palheta de 3 cm por 12 cm e vaso de cerca de 800 mL. Para novas compras e para padronizar o município, vale a medida da nota técnica de 2025.
Etiquete a armadilha por fora, com código único, código do município, logo da prefeitura ou da secretaria e aviso para não mexer. A palheta leva, numa ponta, o número da armadilha, o código IBGE e a data de instalação.
Onde e como instalar
Instale no peridomicílio, com o morador presente e de acordo. A NT 3/2025 pede:
- altura máxima de 150 cm;
- abrigo da chuva e do sol;
- fora do alcance de crianças e animais domésticos;
- armadilha parada no mesmo lugar até o dia da coleta.
A distância entre armadilhas, nos municípios infestados, é de 300 ou 400 metros, conforme a capacidade operacional. O manual anterior indicava de 100 a 300 metros, com cobertura homogênea. Registre a localização dos pontos, em malha georreferenciada ou croqui, para comparar uma rodada com a outra.
Em município não infestado, a prioridade são áreas de trânsito de pessoas e cargas, como portos, rodoviárias e aeroportos.
Na prática: registre cada armadilha no Boletim de Campo (endereço, quarteirão, número da armadilha, responsável pelo imóvel e data) e avise o morador da data da próxima visita.
Inspeção e frequência
Inspecione ou troque a palheta 5 dias após a instalação, segundo a NT 3/2025. Passar do prazo é desaconselhado, porque a armadilha pode virar foco de Aedes. Se a pesquisa não puder continuar, recolha a armadilha.
A periodicidade do monitoramento é semanal ou quinzenal nas áreas prioritárias e mensal nas demais, conforme a capacidade do município.
O diagrama mostra a rotina em sete etapas: instalar a armadilha, aguardar 5 dias, recolher a palheta, contar os ovos, calcular os três índices, comparar com o monitoramento anterior e orientar as ações na área.
Na troca, descarte a água preferencialmente no solo, para os ovos não eclodirem, e lave o recipiente com esponja. Transporte as palhetas na vertical, com a etiqueta para cima. No laboratório, seque-as de 2 a 3 dias na horizontal, sem sobreposição, e conte os ovos com lupa, com técnico treinado. Palheta sem ovos é negativa. Armadilha positiva deve ser escovada antes de reutilizada, ou trocada.
O aplicativo Conta Ovos, da Fiocruz, do CEFET-RJ e do Mosqlimate (FGV), registra as armadilhas, recebe os dados e gera mapas de densidade de ovos. A nota técnica diz que municípios que implementarem o monitoramento terão acesso a ele.
Índices: IPO, IDO e IDV
A NT 3/2025 define três índices a partir da contagem de ovos:
| Índice | O que mostra | Fórmula |
|---|---|---|
| IPO | Porcentagem de armadilhas positivas | armadilhas positivas × 100 ÷ armadilhas examinadas |
| IDO | Média de ovos por armadilha positiva | ovos ÷ armadilhas positivas |
| IDV | Média de ovos por armadilha examinada | ovos ÷ armadilhas examinadas |
Exemplo: numa rodada ilustrativa, 20 armadilhas examinadas, 12 positivas e 540 ovos. IPO = 12 × 100 ÷ 20 = 60%. IDO = 540 ÷ 12 = 45 ovos. IDV = 540 ÷ 20 = 27 ovos. Os números são hipotéticos, só para mostrar a conta.
A nota não fixa ponto de corte para esses índices. A leitura é comparativa: quando eles sobem em relação ao último monitoramento, a área deve ser inspecionada, e as ações de controle, educação em saúde e mobilização são intensificadas num raio de 200 metros ao redor das ovitrampas. As medidas possíveis incluem eliminação de depósitos, larvicida em reservatórios A1 e A2 e, com notificação de casos, nebulização espacial em UBV para bloqueio. Veja o passo a passo do bloqueio de transmissão.
Ovitrampa e LIRAa
A ovitrampa complementa o LIRAa, não o dispensa. A NT 3/2025 recomenda a todos os municípios um levantamento amostral anual, pelo LIRAa ou LIA, de preferência antes do período sazonal, para identificar os criadouros predominantes. Para entender os índices larvários, leia LIRAa, IIP e Índice de Breteau.
A vantagem da ovitrampa aparece onde o índice larvário é baixo. No estudo de Codeço e colegas (2015), em cinco cidades brasileiras, o índice de infestação predial teve mediana sempre igual a zero, e as armadilhas raramente deram índices nulos, o que os autores leem como maior sensibilidade para detectar o mosquito.
A nota também exige 3 meses de monitoramento contínuo com ovitrampas antes de adotar estações disseminadoras de larvicida, liberar mosquitos com Wolbachia ou mosquitos estéreis.
Ovitrampa no teste de resistência a inseticidas
As palhetas do monitoramento rotineiro servem ao teste de resistência. Pela Nota Informativa 10/2025, o Ministério da Saúde recomenda coletar palhetas por duas semanas consecutivas e enviá-las ao laboratório do IOC/Fiocruz. Em município com mais de 600 ovitrampas, basta enviar as palhetas positivas de uma semana.
O manual do IOC e do Ministério da Saúde acrescenta um cuidado: se a armadilha serve ao teste, não pode haver larvicida nela, porque isso impediria obter mosquitos adultos para os ensaios.
Em resumo
- A ovitrampa detecta o Aedes e mede a densidade de ovos, mesmo com índice larvário baixo.
- Siga a NT 3/2025: recipiente preto, palheta de Eucatex, 1 mL de levedo, até 150 cm, 300 ou 400 m de distância, inspeção em 5 dias.
- IPO, IDO e IDV saem da contagem de ovos; a nota não fixa ponto de corte, então compare com o monitoramento anterior.
- Mantenha o LIRAa ou o LIA anual junto com as ovitrampas.
- Guarde as palhetas de duas semanas consecutivas para o teste de resistência.
Para as ações de campo que as ovitrampas orientam, veja o controle do Aedes pela Maxmaq, e para o contexto geral, arboviroses: o que o gestor precisa saber.
Perguntas frequentes
Como montar uma ovitrampa?
Use um recipiente plástico preto de boca larga, com no máximo 1 litro e um furo lateral que limite a água a 500 mL, e uma palheta de Eucatex de 15 cm por 2,5 cm presa com clipe, lado áspero para dentro. Ponha 300 mL de água limpa e 1 mL de levedo de cerveja a 0,04%. A Nota Técnica 3/2025 pede instalar no peridomicílio, a até 150 cm de altura, ao abrigo de chuva e sol.
Qual a distância entre ovitrampas?
A Nota Técnica 3/2025 recomenda 300 ou 400 metros entre uma armadilha e outra, conforme a capacidade operacional local. O método anterior, do Instituto Oswaldo Cruz com o Ministério da Saúde, indicava de 100 a 300 metros. Em portos, rodoviárias e aeroportos, a distribuição segue os pontos de trânsito de pessoas e cargas.
Como calcular o IPO?
IPO é o número de armadilhas positivas multiplicado por 100 e dividido pelo número de armadilhas examinadas. Ele indica a porcentagem de armadilhas com ovos. Armadilha positiva é a que tem ao menos um ovo na palheta.
A ovitrampa substitui o LIRAa?
Não. A nota técnica recomenda manter o LIRAa ou o LIA ao menos uma vez por ano, para identificar os criadouros predominantes. A ovitrampa mede a presença e a densidade de ovos. Em estudo em cinco cidades, ela quase nunca deu índice nulo onde o índice de infestação predial foi zero.
Fontes
- Nota Técnica 3/2025-CGARB/DEDT/SVSA/MS (vigilância entomológica com ovitrampas), Ministério da Saúde, 2025
- Metodologia para amostragem de Aedes aegypti por meio de armadilhas de postura (ovitrampas), IOC/Fiocruz e Ministério da Saúde (cópia da SES-RS), 2024
- Surveillance of Aedes aegypti: comparison of house index with four alternative traps (Codeço et al.), PLoS Neglected Tropical Diseases, 2015
- Nota Informativa 10/2025-CGARB/DEDT/SVSA/MS (monitoramento da resistência a inseticidas), Ministério da Saúde, 2025
- Conta Ovos (aplicativo de contagem de ovos de Aedes), Fiocruz, CEFET-RJ e Mosqlimate (FGV), 2025
