LIRAa, IIP e índice de Breteau: como calcular e interpretar
Por Equipe técnica Maxmaq · Publicado em · Atualizado em

O que é o LIRAa e o que ele entrega?
O LIRAa (Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti) é um levantamento por amostragem que devolve, em poucos dias, os índices de infestação larvária do município. O Manual do LIRAa, do Ministério da Saúde (2013), diz que ele pode substituir o levantamento tradicional, cujo resultado só saía depois de fechado o ciclo bimestral de trabalho.
O levantamento entrega três números: o Índice de Infestação Predial (IIP), o índice de Breteau (IB) e o índice por tipo de recipiente. Municípios menores usam o LIA, o Levantamento de Índice Amostral, segundo informe da Secretaria de Saúde do Espírito Santo (2024).
Como a amostra é feita?
O município é dividido em estratos de 8.100 a 12 mil imóveis, com ideal perto de 9 mil, e a equipe sorteia quarteirões dentro de cada estrato. Em cada quarteirão sorteado, inspeciona-se 20% dos imóveis, segundo o manual de 2013.
Os números do manual que importam para o planejamento:
- Estrato: áreas com características socioambientais parecidas, para que a ação pós-LIRAa seja dirigida.
- Amostra: o manual fixou em 450 o número de imóveis a sortear, qualquer que seja o Breteau esperado.
- Estrato pequeno: de 2 mil a 8.100 imóveis, inspeciona-se 50% dos imóveis do quarteirão sorteado.
- Fora da conta: os pontos estratégicos têm rotina própria de levantamento e não entram na amostra.
No quarteirão, o agente inspeciona um imóvel a cada cinco, no sentido horário, no método que o manual chama de “faz um e pula quatro”. Nos edifícios, vale o térreo e os pisos abaixo dele.
O diagrama mostra a sequência do levantamento: estratos, sorteio de quarteirões, inspeção de 20% dos imóveis, registro dos recipientes com larvas e cálculo dos índices. O IIP leva a uma das três faixas: satisfatório (abaixo de 1%), alerta (de 1% a 3,9%) ou risco (acima de 3,9%).
Quais são as fórmulas do IIP e do índice de Breteau?
As fórmulas são duas divisões multiplicadas por 100, ambas com o mesmo denominador, o número de imóveis pesquisados. Estão no manual do Ministério da Saúde (o texto o chama de Índice Predial).
| Índice | Fórmula | O que mede |
|---|---|---|
| IIP | imóveis positivos × 100 ÷ imóveis pesquisados | percentual de imóveis com larvas |
| Breteau (IB) | recipientes positivos × 100 ÷ imóveis pesquisados | recipientes positivos para cada 100 imóveis |
| Por tipo de recipiente | recipientes positivos do tipo “X” × 100 ÷ total de recipientes positivos | peso de cada tipo de criadouro |
Exemplo: suponha 450 imóveis pesquisados, 9 com larvas e 14 recipientes positivos no total (números hipotéticos). IIP = 9 × 100 ÷ 450 = 2,0%. IB = 14 × 100 ÷ 450 = 3,1. Se 6 desses 14 recipientes forem do tipo A2, o índice desse tipo é 6 × 100 ÷ 14 = 42,9%.
O manual faz um alerta de campo. Se o IIP sai igual ao IB em muitos estratos, provavelmente o agente coletou larvas só do primeiro depósito positivo e não olhou os demais. Misturar larvas de vários criadouros no mesmo tubito também compromete o índice. A regra do manual é um tubito por depósito positivo.
Tipos de recipientes (A1 a E)
O manual classifica os depósitos em grupos, e o índice por tipo mostra qual criadouro predomina em cada estrato.
| Grupo | Tipo | Exemplos do manual |
|---|---|---|
| A1 | Água elevada | caixas d’água, tambores, depósitos de alvenaria ligados à rede ou a poço |
| A2 | Água ao nível do solo | tonel, barril, filtros, moringas, cisternas |
| B | Depósitos móveis | vasos, pratos, garrafas retornáveis, bebedouros |
| C | Depósitos fixos | calhas, lajes, ralos, piscinas não tratadas |
| D1 | Pneus e materiais rodantes | pneus, câmaras de ar |
| D2 | Resíduos sólidos | garrafas PET, latas, sucata |
| E | Naturais | axilas de folhas (bromélias), buracos em árvores |
Como interpretar os índices?
Compare o IIP com três faixas. A notícia do CONASS (2014), com dados do Ministério da Saúde, apresentou a classificação: risco com larvas em mais de 3,9% dos imóveis, alerta de 1% a 3,9% e satisfatório abaixo de 1%. Naquele levantamento de outubro de 2014, 117 municípios estavam em risco, 533 em alerta e 813 em situação satisfatória.
| IIP | Classificação |
|---|---|
| abaixo de 1% | satisfatório (baixo risco) |
| de 1% a 3,9% | alerta (médio risco) |
| acima de 3,9% | risco (alto risco) |
Atenção: a redação do corte varia entre documentos. O informe do Espírito Santo (2024) fala em “maior do que 4%” para alto risco e a nota de Sergipe traz a tabela com o sinal trocado (”< 3,9%” para alto risco, o que parece erro de digitação). Para relatório e edital, cite o documento e o ano da faixa que você adotou.
O IIP lê melhor o conjunto da cidade. O IB acrescenta o número de recipientes por imóvel, embora, segundo o manual, não pese a produtividade de cada tipo de criadouro. O índice por tipo diz onde agir.
Como o LIRAa orienta as ações?
O resultado serve para dirigir o trabalho de rotina e a mobilização, não só para classificar. Pelo manual, os dados por tipo de recipiente permitem redirecionar ou intensificar intervenções e até mudar a estratégia de controle.
Dois estados usam o IIP como critério para o fumacê (UBV pesado), sempre com o quadro de casos:
- Sergipe: a nota informativa da Secretaria de Estado da Saúde (2025) exige IIP acima de 1% nas localidades, com LIRAa ou LIA de no máximo 90 dias, além de incidência alta (100 casos por 100 mil habitantes).
- Minas Gerais: o POP 01 da Secretaria de Estado de Saúde (2024) indica a aplicação intradomiciliar em áreas com índice do LIRAa ou do LIA acima de 3,9% no último levantamento, entre outras situações.
Ambos tratam o UBV como ação emergencial, para bloqueio de transmissão e surtos. Veja como isso entra no plano de contingência para arboviroses e no bloqueio de transmissão.
Quais os limites do LIRAa e qual o papel das ovitrampas?
O IIP e o IB medem larvas em imóveis, e isso deixa de fora a presença do mosquito em muitos cenários. Três pontos pesam na leitura:
- Limiar de risco: o manual fala em “limiar de risco (IB = 5)”, mas uma revisão sistemática (Bowman et al., 2014) de 18 estudos achou transmissão de dengue abaixo de IB 5 em 6 dos 7 que mediram o Breteau. Os autores concluem que valores únicos desses índices não são limiares universais confiáveis.
- Sensibilidade: em cinco cidades brasileiras, as armadilhas “rarely produced null indices” e o índice predial ficou baixo na maioria, segundo Codeço et al. (2015).
- Índices perto de zero: em Salvador, onde o índice predial e o de Breteau eram negativos ou perto de zero, a densidade de ovos chegou a 8,3%, segundo Morato et al. (2005).
Na prática: use o LIRAa para comparar estratos e priorizar criadouros, e não como prova de ausência de mosquito. IIP baixo não dispensa vigilância por ovitrampas, que detectam a fêmea ovipondo onde a busca larvária dá zero.
Em resumo
- O LIRAa amostra 20% dos imóveis dos quarteirões sorteados em estratos de 8.100 a 12 mil imóveis.
- IIP e IB têm o mesmo denominador (imóveis pesquisados), mas o IB conta recipientes, e não imóveis.
- A faixa do Ministério da Saúde é: abaixo de 1%, satisfatório; de 1% a 3,9%, alerta; acima de 3,9%, risco.
- IIP igual ao IB em muitos estratos indica falha de coleta: um tubito por depósito positivo.
- Limiar de risco não é garantia: houve transmissão abaixo dele, e as ovitrampas completam o quadro.
Para a visão completa do tema, comece pelo guia de arboviroses. Se o município precisa de apoio na rotina de controle, conheça o serviço de controle do Aedes da Maxmaq.
Perguntas frequentes
Qual IIP é considerado de risco?
Pela classificação divulgada pelo Ministério da Saúde, risco é o IIP acima de 3,9%, alerta vai de 1% a 3,9% e satisfatório fica abaixo de 1%. Alguns informes estaduais escrevem o corte de risco como 4%. Confira qual redação o seu estado adota.
Como calcular o índice de Breteau?
Divida o número de recipientes positivos para larvas pelo número de imóveis pesquisados e multiplique por 100. Segundo o Manual do LIRAa, o resultado é expresso para 100 imóveis. Um imóvel com três recipientes positivos pesa três vezes no numerador.
O LIRAa substitui a ovitrampa?
Não. O LIRAa mede larvas e pupas em imóveis, e a ovitrampa detecta a fêmea ovipondo. Em um estudo em Salvador, a ovitrampa registrou densidade de ovos de 8,3% onde o índice predial e o de Breteau estavam perto de zero.
O LIRAa serve para decidir o fumacê?
Serve como um dos critérios, junto com os dados de casos. O fumacê (UBV pesado) é reservado ao bloqueio de transmissão e a surtos. Em Sergipe, o pedido exige IIP acima de 1%, e em Minas Gerais a aplicação intradomiciliar considera índice acima de 3,9%.
Fontes
- Manual do LIRAa: levantamento rápido de índices para Aedes aegypti, Ministério da Saúde, 2013
- Dengue: 117 municípios em situação de risco e 533 em alerta, CONASS, com dados do Ministério da Saúde, 2014
- Nota informativa: critérios para solicitação de aplicação espacial a UBV pesada, Secretaria de Estado da Saúde de Sergipe, 2025
- POP 01: aplicação espacial intradomiciliar de inseticidas a ultra baixo volume, Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, 2024
- Bowman et al.: associação entre índices de vetores e transmissão de dengue (revisão sistemática), PLoS Neglected Tropical Diseases, 2014
- Morato et al.: infestação de Aedes aegypti estimada por ovitrampas em Salvador, Revista de Saúde Pública, 2005
- Codeço et al.: armadilhas e levantamento larvário em cinco cidades brasileiras, PLoS Neglected Tropical Diseases, 2015
- Informe entomológico regional nº 001/2024 (1º LIRAa de 2024), Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, 2024
