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Plano de contingência de arboviroses: estágios, gatilhos e o que preparar antes da temporada

Por Equipe técnica Maxmaq · Publicado em · Atualizado em

O que é o plano de contingência e quem o aciona?

É o roteiro que define o que cada nível de governo faz conforme a situação epidemiológica. O Plano de Contingência Nacional para Dengue, Chikungunya e Zika (Ministério da Saúde, 2025) organiza a resposta em quatro estágios operacionais: normalidade, mobilização, alerta e epidemia.

O gatilho vem do diagrama de controle, também chamado de canal endêmico. O plano usa a mediana semanal dos casos prováveis dos últimos cinco anos, com o primeiro e o terceiro quartis como limites mínimo e máximo do canal. A Secretaria Municipal de Saúde deve manter esse diagrama na rotina e, conforme o porte do município, pode montá-lo por região para detectar epidemias ainda localizadas.

Na prática: quem não tem o diagrama de controle atualizado não sabe em que estágio está. Monte-o antes da temporada, não durante.

Quais são os quatro estágios e o gatilho de cada um?

Cada estágio muda quando a incidência de casos prováveis cruza uma linha do canal endêmico. Os critérios abaixo são os do Quadro 1 do plano nacional, para dengue. Chikungunya e Zika têm quadros próprios, com lógica semelhante.

EstágioGatilho principal (dengue)Outros indicadores previstos
NormalidadeCasos dentro do canal endêmicoPreparação e monitoramento de rotina
MobilizaçãoCasos acima da mediana e abaixo do limite superior por 4 semanas consecutivasNowcasting na mesma faixa; positividade por RT-PCR acima de 20% por 4 semanas; inversão de sorotipo predominante
AlertaCasos acima do limite superior do canal por 4 semanas consecutivas, com aumento de óbitos suspeitos ou confirmadosMais de 1% de casos graves ou com sinais de alarme; letalidade acima de 0,05%; novo sorotipo com 20% ou mais
EpidemiaAumento exponencial dos casos acima do limite superiorCasos graves ou com sinais de alarme em 1% ou mais; óbitos crescendo por mais de 4 semanas

Dentro de cada cenário, vários indicadores são alternativos (“E/OU” no plano). Por isso o município olha mais do que a curva de casos: sorotipo, positividade laboratorial e gravidade também contam.

Diagrama com os quatro estágios do plano de contingência (normalidade, mobilização, alerta e epidemia) e o gatilho que leva de um ao outro

O diagrama mostra a escada de estágios da esquerda para a direita. Da normalidade à mobilização, os casos passam da mediana por 4 semanas. Da mobilização ao alerta, passam do limite superior por 4 semanas. Do alerta à epidemia, o aumento é exponencial. Na normalidade a tarefa é monitorar equipamentos e insumos; na epidemia, suspender os levantamentos de índices e reorientar o controle vetorial.

O que fazer em cada estágio?

Na normalidade, prepare. O plano coloca no manejo integrado de vetores a tarefa de monitorar “estoques, condições de armazenamento, uso e distribuição de equipamentos e insumos (inseticidas, nebulizadores costais e veiculares, pulverizadores, veículos e equipamentos de proteção individual)”. Também pede avaliar índices entomológicos como o IIP e o Índice de Breteau nos municípios estratégicos e planejar o controle em pontos estratégicos e imóveis especiais.

Na mobilização e no alerta, intensifique. As ações previstas incluem orientar o bloqueio de transmissão de casos conforme o cenário epidemiológico, consolidar informações entomológicas em boletins semanais e preparar as equipes de campo para a intensificação. O bloqueio de transmissão entra aqui, conforme o cenário epidemiológico.

Na epidemia, reoriente. Duas frases do plano resumem o estágio: “As atividades de controle vetorial jamais devem ser descontinuadas, e sim reorientadas”, e se recomenda suspender os levantamentos de índices para usar a força de trabalho no controle intensivo de focos. Isso inclui eliminação em massa de criadouros, controle larvário e aplicação espacial de adulticida de forma racional, em clusters de transmissão.

Atenção: o plano diz que o adulticida atua como medida de bloqueio, deve ser usado só em cenários epidemiológicos graves, como complemento, e de preferência com equipamentos portáteis. Planeje o parque de equipamentos com essa ordem de prioridade.

Quando preparar? O calendário do segundo semestre

O plano é direto: “O segundo semestre do ano é o período em que as ações de prevenção das arboviroses devem ser implementadas” para reduzir a transmissão nos primeiros meses do ano seguinte. A razão está no texto: dada a concentração de casos em poucos meses e o comportamento explosivo das epidemias, “não é viável adquirir diversos insumos, ou preparar os serviços e profissionais de saúde durante o período epidêmico”.

A referência histórica vai na mesma direção. As Diretrizes Nacionais de 2009 recomendam intensificar o monitoramento de outubro a maio, período da sazonalidade de transmissão no país. O próprio Ministério relata que, em 2023, abriu a preparação cerca de cinco meses antes da epidemia de 2024, com processos de compra de insumos, entre eles bombas costais, por ata de registro de preços.

O calendário abaixo é uma sugestão da Maxmaq para organizar a rotina, ancorada nas datas do plano e das normas citadas:

QuandoO que fecharÂncora
Julho a setembroDiagrama de controle atualizado; inventário de equipamentos, inseticidas e EPI; manutenções e compras em andamentoPlano nacional (2º semestre)
Setembro a outubroPlano municipal revisado; comitê ou sala de situação ativos; aferição e parametrização agendadasPlano nacional; PEC-Arbo/MG
Até 30 dias antes da operaçãoRelatório de parametrização, análise de espectro de gota e medição de vazão do UBV veicularDeliberação CIB-SUS/MG 4.732/2024
Outubro a maioMonitoramento intensificadoDiretrizes de 2009

Exemplo: se o UBV veicular começa a operar em 1º de dezembro, em Minas Gerais os documentos de parametrização e de medição só valem se forem emitidos a partir de 1º de novembro. A Deliberação CIB-SUS/MG 4.732/2024 fixa o máximo de 30 dias e exige repetir o procedimento quando o equipamento rodou em solo muito irregular ou o consumo de inseticida mudou.

Minas Gerais também aprovou, pela Resolução SES/MG 10.440/2025, o plano estadual e os planos municipais de contingência para dezembro de 2025 a novembro de 2027. Entre as ações de rotina, ela prevê o acompanhamento mensal do estoque de inseticidas e a análise de situação do município que inclui o uso de UBV costal motorizado ou veicular. Se o seu estado tem plano próprio, ele vale junto com o nacional.

O que checar nos equipamentos antes da temporada?

Esta lista é recomendação da Maxmaq, montada a partir do que o plano manda monitorar. O Ministério da Saúde não a exige.

  1. Inventário: quantos nebulizadores costais, veiculares e pulverizadores existem, quantos funcionam e onde estão.
  2. Manutenção preventiva: equipamentos parados há meses precisam de revisão antes do uso. Veja a manutenção de equipamentos UBV.
  3. Aferição e parametrização: vazão e espectro de gota conforme o inseticida em uso. O tamanho de gota no UBV e o serviço de aferição de gotas detalham o método.
  4. Peças e consumíveis: itens de desgaste em estoque, porque o prazo de reposição no pico da temporada é imprevisível.
  5. Inseticida: estoque, validade e condição de armazenamento.
  6. Veículos e EPI: caminhonetes revisadas e EPI completo e no tamanho de cada agente.
  7. Capacidade de reserva: se o parque não cobre a demanda do alerta, estude a locação de equipamentos UBV antes de o estágio mudar.

Em resumo

  • O plano nacional tem quatro estágios, ativados pelo canal endêmico e por indicadores laboratoriais e de gravidade.
  • O segundo semestre é o tempo de preparar, porque na epidemia não é viável comprar insumos nem montar serviços.
  • Na normalidade, monitore equipamentos, inseticidas, veículos e EPI. Na epidemia, suspenda os levantamentos de índices e reoriente o controle vetorial, sem interrompê-lo.
  • Em Minas Gerais, parametrização e medição do UBV veicular valem se emitidas até 30 dias antes da operação.
  • Confira os planos estadual e municipal vigentes, que detalham as ações por cenário.

Para organizar a rotina de campo desse período, veja o serviço de controle de Aedes aegypti da Maxmaq e o panorama das arboviroses.

Perguntas frequentes

Quando o município entra em alerta?

Pelo Plano de Contingência Nacional de 2025, o alerta combina casos prováveis acima do limite superior do canal endêmico por quatro semanas consecutivas com aumento de óbitos suspeitos ou confirmados. O plano admite indicadores alternativos, como nowcasting acima do limite superior ou mais de 1% de casos graves ou com sinais de alarme.

O que preparar antes do verão?

Segundo o plano, estoques, condições de armazenamento e uso de inseticidas, nebulizadores costais e veiculares, pulverizadores, veículos e EPI são monitorados já na normalidade. Em Minas Gerais, a parametrização do UBV veicular precisa estar documentada com até 30 dias de antecedência do início da operação.

O que muda quando a epidemia é declarada?

O plano recomenda suspender os levantamentos de índices e usar a equipe de campo no controle intensivo de focos. O controle vetorial nunca é interrompido, só reorientado. A aplicação espacial de adulticida entra como medida complementar, em cenários graves, de preferência com equipamento portátil.

O plano nacional vale para o meu município?

Ele orienta estados e municípios, que devem se preparar no âmbito das suas competências. A Secretaria Municipal de Saúde deve usar o diagrama de controle na rotina, e estados como Minas Gerais aprovaram planos próprios, com ações por cenário. Confira o plano estadual e o municipal vigentes.

Fontes

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