Fumacê funciona? O que dizem o Ministério da Saúde, a OPAS e os estudos
Por Equipe técnica Maxmaq · Publicado em · Atualizado em
O que é o fumacê
O fumacê é a aplicação espacial de inseticida a ultra baixo volume (UBV): um equipamento transforma uma pequena quantidade de produto em névoa fina, que fica suspensa no ar. O Ministério da Saúde descreve a técnica como a dispersão de inseticida em névoa fina para eliminar mosquitos adultos em circulação (Nota Técnica 41/2026).
O alvo é só o adulto que está voando na hora da passagem e é atingido pelas gotas. A Nota Técnica 1/2020 acrescenta que o efeito depende de clima, estado do equipamento, vazão, velocidade, habilidade do operador e do hábito do Aedes aegypti de ficar dentro das casas, o que dificulta alcançá-lo.
Não há efeito residual duradouro: depois que a névoa se dissipa, o que sobra são os mosquitos que não estavam ao alcance e os que nascem em seguida.
Quando o Ministério da Saúde indica o fumacê
O uso é restrito a transmissão ativa, como bloqueio de casos. Três documentos do Ministério, de 2023 a 2026, dizem a mesma coisa com palavras diferentes:
| Documento | O que diz sobre o UBV |
|---|---|
| Nota Técnica 15/2023 | Indicado “apenas em situações emergenciais para bloqueio de casos”, quando as outras alternativas foram insuficientes. |
| Plano de Contingência Nacional, 2025 | Medida de bloqueio a aplicar só em cenários epidemiológicos graves, de forma complementar, de preferência com equipamento portátil. |
| Nota Técnica 41/2026 | Usado principalmente em transmissão ativa ou surtos, como bloqueio complementar e resposta rápida. |
Por isso o fumacê não passa em toda rua. Sem transmissão ativa na área, a prioridade é eliminar criadouros e vigiar. A mesma nota de 2026 afirma que o controle mecânico é a principal forma de prevenção das arboviroses e que o tratamento focal e o controle mecânico não param quando a área recebe outra tecnologia.
Na prática: quem pergunta “por que não vieram na minha rua?” costuma ter a resposta na vigilância do município: sem caso confirmado e sem transmissão ativa na área, não há indicação de bloqueio.
O que mostram os estudos
Há evidência de que o fumacê reduz mosquitos adultos por pouco tempo. Para o efeito sobre casos de dengue, a evidência é fraca. Os estudos mais citados:
- Revisão de 2010 (Esu et al.), 15 estudos: encontrou nenhuma evidência clara para recomendar a aplicação peridomiciliar como medida única e eficaz. Ela funciona melhor dentro de uma estratégia integrada.
- Revisão de 2016 (Bowman et al.): nenhum ensaio randomizado avaliou a aplicação espacial sobre a transmissão ou a incidência de dengue nos 35 anos anteriores.
- Iquitos, Peru (Gunning et al., 2018): a aplicação interna reduziu em cerca de 83% e 64% os adultos por casa nos dois experimentos, mas as densidades voltaram perto do nível anterior em menos de um mês. Os autores veem efeito entomológico de curto prazo e pedem ensaios que meçam infecção humana.
- São José do Rio Preto e Marília (Andrighetti et al., 2013): em gaiolas dentro das casas, o equipamento portátil matou 96,5% das fêmeas e o veicular, 54,3%, em testes com malation, em populações então suscetíveis ao produto. O estudo mediu mosquitos, não casos.
- OPAS (2020): aplicações dentro de casa, com nebulização térmica, de baixo volume e UBV, são mais eficazes que as externas, se bem aplicadas onde o Aedes repousa e pica.
Atenção: “mata mosquito adulto” e “reduz casos” são afirmações diferentes. A primeira tem estudo de campo. A segunda ainda não tem ensaio que a comprove.
Por que a execução decide o resultado
Como o UBV só atinge o mosquito que está ao alcance da névoa, cada parâmetro técnico pesa. Os números abaixo vêm da Nota Técnica 1/2020, escrita para um produto específico e uma dose específica (118 mL/ha); outros produtos seguem o rótulo e a orientação do Ministério.
O fluxograma mostra a ordem de decisão antes de cada saída. Parte dos casos notificados na área. Sem transmissão ativa, o foco é eliminar criadouros e manter a vigilância. Com transmissão ativa, o equipamento só sai depois de aferido (gotas de 15 a 20 µm e vazão certa); se não estiver, volta para aferição e calibração. Em seguida, confere horário e vento. Só então aplica em ciclos no raio do bloqueio e avalia casos e índices.
Gota no tamanho certo
Cerca de 80% das gotas devem ficar entre 15 e 20 µm, com verificação bimestral na rotina e sempre que algo comprometer o equipamento (acidente, via sem pavimento). Gota fora da faixa não fica no ar na altura do mosquito. Veja como se mede e se controla a gota.
Horário e vento
A nota de 2020 pede aplicação cerca de 2 horas antes e depois do nascer e do pôr do sol. O procedimento da Secretaria de Saúde de Minas Gerais (2024) explica o motivo: com estabilidade térmica, a nuvem fica rente ao chão, abaixo de 6 m, onde o mosquito está. Ele fixa janelas de 6h às 9h e de 16h às 20h e considera inviável aplicar com chuva ou vento acima de 15 km/h.
Velocidade e vazão
Para o nebulizador veicular, o padrão é 15 km/h com vazão de 70 a 75 mL/min. Para o costal, 3,2 km/h e 16 a 20 mL/min. A vazão se regula semanalmente, em equipamentos pesados e portáteis, e a manutenção segue o manual do fabricante.
Raio e ciclos do bloqueio
O raio parte de no mínimo 150 m do caso notificado. A nota de 2020 prevê 3 ou 5 ciclos na mesma área, com intervalos de 3 a 5 dias. A Minas Gerais descreve, para áreas de incidência muito alta, 4 ciclos diários por pelo menos duas semanas, com pausa de três dias entre as sequências. O detalhe do procedimento está em bloqueio de transmissão.
A própria nota ressalta que, mesmo em condições ótimas, a pulverização não elimina todos os adultos, e o resíduo pode bastar para manter a transmissão.
Inseticida e resistência
O Ministério detectou resistência ao malation em populações de campo de todas as regiões do país (Nota Informativa 29/2024), e a mutação ligada à resistência a piretroides é frequente em todas as regiões. O produto precisa ser o recomendado pelo programa. Mais em inseticidas para UBV.
Um equipamento sem aferição pode falhar em qualquer desses pontos sem que o operador perceba. O serviço de aferição de gotas existe para isso.
O fumacê mata larvas?
Não. O UBV age só sobre o inseto adulto em voo na hora da aplicação, conforme a Nota Técnica 1/2020. As larvas estão na água, e quem as controla é a eliminação do recipiente ou o larvicida em depósitos que não podem ser removidos.
Por isso o bloqueio começa pelo chamado bloqueio focal: mutirão de limpeza e tratamento larvário antes da nebulização. O procedimento mineiro manda repetir o controle de criadouros se passarem mais de sete dias entre o focal e a nebulização. A página do Ministério sobre a dengue reforça que o controle do vetor é o principal método de prevenção, com remoção de recipientes, vedação de caixas d’água e limpeza de calhas e ralos. Sobre segurança da aplicação, veja fumacê faz mal?.
Em resumo
- O fumacê atinge adultos em voo; não age sobre larvas nem deixa efeito duradouro.
- O Ministério da Saúde o indica em transmissão ativa, como complemento ao controle de criadouros.
- Há evidência de queda de mosquitos adultos por semanas; não há ensaio randomizado mostrando queda de casos.
- Gota de 15 a 20 µm, horário, vento, vazão, raio e ciclos decidem o resultado; equipamento sem aferição compromete tudo isso.
- Inseticida precisa respeitar a resistência local, conforme a orientação do Ministério.
Para equipes que precisam de equipamento aferido e aplicação conforme esses parâmetros, a Maxmaq descreve o trabalho na página de pulverização UBV.
Perguntas frequentes
O fumacê mata o mosquito da dengue?
Mata os adultos que estão em voo e entram em contato com as gotas durante a aplicação. O resultado depende do tamanho da gota, do horário, da dose e de o mosquito estar ao alcance da névoa. Em estudo paulista com malation, a mortalidade em gaiolas dentro das casas foi de 96,5% com equipamento portátil e de 54,3% com o veicular.
Por que o fumacê não passa na minha rua?
O Ministério da Saúde indica o UBV só em transmissão ativa ou surto, para bloqueio de casos, depois de eliminar criadouros e quando as outras medidas não bastaram. Sem caso confirmado na área, a prioridade é a eliminação de criadouros e a vigilância.
Quantas vezes o fumacê passa no bloqueio?
A nota técnica do Ministério da Saúde de 2020 prevê 3 ou 5 ciclos na mesma área, com intervalo de 3 a 5 dias. A Secretaria de Saúde de Minas Gerais, em procedimento de 2024, descreve também um esquema de 4 ciclos diários repetidos por duas semanas em áreas de incidência muito alta. A coordenação local define o esquema.
O fumacê substitui a limpeza do quintal?
Não. O Ministério da Saúde trata o controle do vetor, com eliminação de criadouros, como o principal método de prevenção da dengue. O fumacê age só sobre o adulto em voo, e a nota técnica 41/2026 lembra que nenhuma intervenção isolada é suficiente.
O fumacê mata larvas?
Não. O UBV tem como alvo apenas os insetos adultos em voo no momento da aplicação. As larvas ficam na água parada e se controlam com eliminação do criadouro e larvicida, aplicados antes do bloqueio.
Fontes
- Nota Técnica 15/2023-CGARB/DEDT/SVSA/MS, Ministério da Saúde (cópia da SES-GO), 2023
- Nota Técnica 41/2026-CGARB/DEDT/SVSA/MS, Ministério da Saúde, 2026
- Plano de Contingência Nacional para Dengue, Chikungunya e Zika, Ministério da Saúde, 2025
- Diretrizes provisórias nº 1: Aedes aegypti e COVID-19, OPAS, 2020
- Esu et al. Effectiveness of peridomestic space spraying with insecticide on dengue transmission (revisão sistemática), Tropical Medicine and International Health, 2010
- Bowman, Donegan e McCall. Is Dengue Vector Control Deficient in Effectiveness or Evidence? (revisão sistemática e metanálise), PLoS Neglected Tropical Diseases, 2016
- Andrighetti et al. Eficácia do UBV com equipamentos portátil e veicular sobre Aedes aegypti (malation), Revista de Patologia Tropical, 2013
- Nota Técnica 1/2020-CGARB: parâmetros de aplicação UBV, Ministério da Saúde (cópia da SES-GO), 2020
- Nota Informativa 29/2024-CGARB: manejo da resistência do Aedes aegypti, Ministério da Saúde (cópia da SES-MG), 2024
- Dengue (página do Ministério da Saúde), Ministério da Saúde, 2025
- Gunning et al. Efficacy of Aedes aegypti control by indoor Ultra Low Volume insecticide spraying in Iquitos, Peru, PLoS Neglected Tropical Diseases, 2018
- POP 03: Aplicação espacial de inseticidas a ultra baixo volume com UBV veicular, Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, 2024
