Inseticidas usados no fumacê: Cielo-ULV, resistência do Aedes e orientações do Ministério da Saúde
Por Equipe técnica Maxmaq · Publicado em · Atualizado em
Quem fornece o inseticida ao município?
O Ministério da Saúde. A Nota Técnica 15/2023 trata da normalização dos estoques de inseticidas de UBV e da programação de distribuição aos estados. O pedido é feito no Sistema de Insumos Estratégicos (SIES), com planejamento mensal de uso, e o estoque do estado deve ficar atualizado no mesmo sistema.
Há uma regra de logística: nenhuma unidade da federação recebe os dois produtos. Na tabela da nota, 13 unidades receberam Fludora Co-Max e 14 receberam Cielo-ULV (13 estados e o Distrito Federal). A distribuição do Cielo estava prevista a partir de 22/05/2023. A mesma nota indica o uso só em emergência, para bloqueio de casos, depois que as outras medidas não bastaram.
Cielo-ULV: qual a composição, a dose e o cuidado com o equipamento?
O Cielo-ULV combina um neonicotinoide com um piretroide: imidacloprida a 3% (30 g/kg) e praletrina a 0,75% (7,5 g/kg), segundo a Nota Técnica 1/2020. A OMS o pré-qualificou em 22/01/2019, com a Clarke International como requerente. É um produto pronto para uso.
Os parâmetros da nota para os dois equipamentos:
| Parâmetro | UBV veicular pesado | Costal motorizado |
|---|---|---|
| Dose | 118 mL/ha (4 g de imidacloprida/ha) | 118 mL/ha |
| Velocidade | 15 km/h | 3,2 km/h |
| Vazão | 70 a 75 mL/min | 16 a 20 mL/min |
| Gotas | 15 a 20 µm | 15 a 20 µm |
Fonte: Nota Técnica 1/2020-CGARB, item IV. Para a aplicação em si, veja o carro do fumacê e o tamanho de gota.
Atenção: o texto da própria Nota Técnica 1/2020 cita “100 ml/hectare” na ficha técnica e 118 mL/ha no quadro de dosagem. Para a conta de campo, vale o quadro de dosagem, que traz velocidade e vazão.
O rótulo registrado na OMS é mais amplo: 88 a 146 mL/ha, em ventos de 1 a 20 km/h, com gotas de 15 a 20 µm (90% do volume abaixo de 50 µm). Os 118 mL/ha da nota ficam dentro dessa faixa.
Exemplo: a vazão depende da faixa efetiva usada na conta: mL/min = dose (mL/ha) × faixa (m) × velocidade (km/h) ÷ 600. Com 117 mL/ha, 15 km/h e faixa de 91,5 m, a tabela do rótulo dá 268 mL/min. Com 118 mL/ha e 15 km/h, os 70 a 75 mL/min da nota correspondem a uma faixa de cerca de 24 a 25 m. A conta é nossa, e a nota não informa a faixa. Por isso, não misture tabelas de fontes diferentes: calibre pelo documento que sua secretaria adota (veja a calibração do UBV).
Há ainda um cuidado de limpeza. A formulação é hidrofóbica e não pode ter contato com água. Todo equipamento que aplicar Cielo pela primeira vez, ou que voltar a ele depois de outro produto, deve ser limpo com álcool isopropílico, que é inflamável. No veicular, a nota manda lavar tanque e filtro e circular 2 litros de álcool novo por 3 minutos, com a mangueira do bico num coletor.
Fludora Co-Max entra no fumacê?
Entrou em 2023, em parte do país. O Fludora Co-Max associa flupiradifurona (butenolídeo) e transflutrina (piretroide). A OMS o pré-qualificou em 20/10/2020, como emulsão de óleo em água de 26,3 g/L e 52,5 g/L, respectivamente, para aplicação espacial em ambientes internos e externos.
Entre os estados que o receberam estão Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná. Este artigo não traz dose do Fludora Co-Max, porque a nota consultada não a informa: use o rótulo e a nota técnica específica.
Não confunda com o Fludora Fusion, outro produto. É um inseticida residual em pó molhável (clotianidina e deltametrina), de uso em pontos estratégicos, e a nota proíbe aplicá-lo com costal UBV.
Como a resistência do Aedes muda a escolha do inseticida?
Ela é o motivo para acompanhar o produto, trocar quando for o caso e não usar o UBV como rotina. A Nota Informativa 29/2024 reúne o que se sabe:
- Ensaios de 2017 e 2018 detectaram resistência do Aedes aegypti ao malation em todas as regiões do país.
- As variantes genéticas de resistência a piretroides persistem, mesmo sem uso dessa classe no programa desde 2012. A frequência de mutações kdr é alta em todas as regiões.
- O kdr pode atrapalhar a leitura dos testes de misturas com piretroide, e os pesquisadores pedem bioensaios complementares, com cada ingrediente separado e junto.
- A resistência à praletrina com imidacloprida será reavaliada. Até lá, a combinação segue vigente.
- Entre os critérios de escolha de insumos estão ingredientes ativos diferentes, em especial nos adulticidas, e o uso em mosaico: rotação ou uso simultâneo de classes em áreas ou períodos distintos.
A nota reitera o uso racional: o UBV serve ao bloqueio de transmissão, depois das medidas não químicas. A OMS também pede monitoramento da resistência em campo para escolher inseticidas com base em evidência.
Na prática: quem compra ou fiscaliza contrato deve tratar o inseticida como insumo do Ministério da Saúde. A troca de produto vem das notas, não do operador.
E em área de febre amarela?
A Nota Técnica 14/2025 separa dois cenários nas áreas periurbanas e urbanas:
- Evento suspeito: visitas domiciliares na borda (300 ou 400 m a partir da mata), com comunicação, manejo de criadouros e tratamento focal. A nota não prevê UBV nesse caso.
- Evento confirmado: Cielo-ULV com costal motorizado no peridomicílio da borda, também de 300 ou 400 m. Se houver necessidade e possibilidade, UBV veicular nas áreas vizinhas infestadas, além da borrifação residual intradomiciliar.
Em nenhuma modalidade se aplica inseticida em área de mata: o controle químico fica nas áreas urbanas ou periurbanas vizinhas.
Que cuidados valem na aplicação?
O rótulo da OMS classifica o Cielo-ULV como classe III (ligeiramente perigoso). Os pontos do rótulo e da nota:
- Moradores: em aplicação interna, as pessoas saem durante a aplicação e por mais 15 minutos. Alimentos, utensílios de cozinha e animais de estimação devem ser protegidos antes.
- Vento: não aplicar contra o vento, e só entre 1 e 20 km/h.
- Abelhas e água: o produto é muito tóxico para abelhas expostas e tóxico para aves, peixes e invertebrados aquáticos. A nota observa que a maioria das aplicações ocorre no início da manhã ou no crepúsculo, quando as abelhas estão recolhidas.
- Equipe: a nota lista óculos ou viseira, luvas nitrílicas, avental impermeável, touca árabe, respirador semifacial com filtro químico ou PFF2, botas, vestimenta hidrorrepelente e protetor auricular. Primeiros socorros seguem o rótulo e a FISPQ.
Sobre o risco para a população, veja fumacê faz mal. Para sintomas, procure o serviço de saúde e o Ministério da Saúde.
Em resumo
- O Ministério da Saúde distribui o inseticida do UBV e define qual produto cada unidade recebe.
- O Cielo-ULV é pronto para uso: 118 mL/ha, gotas de 15 a 20 µm, sem diluição e com limpeza prévia por álcool isopropílico.
- O Fludora Co-Max foi o outro produto distribuído em 2023. O Fludora Fusion é residual e não vai no UBV.
- A resistência ao malation e a alta frequência de kdr são o pano de fundo do manejo em mosaico, e o UBV fica restrito a bloqueio e emergência.
- Em febre amarela, o Cielo entra só com evento confirmado, na borda da mata e nunca dentro dela.
A pulverização UBV da Maxmaq segue as notas do Ministério da Saúde para o produto que o município recebe.
Perguntas frequentes
Que veneno o fumacê usa?
O inseticida que o Ministério da Saúde preconiza para o UBV é o Cielo-ULV, mistura de imidacloprida e praletrina. Em 2023 o Ministério também programou a distribuição do Fludora Co-Max (flupiradifurona e transflutrina) para parte das unidades da federação. A aplicação segue as notas técnicas e o rótulo do produto.
Por que o malation deixou de ser o padrão?
A Nota Informativa 29/2024 registra que ensaios de 2017 e 2018 detectaram resistência do Aedes aegypti ao malation em todas as regiões do país. A nota também lista a combinação de praletrina e imidacloprida como adulticida espacial escolhido em 2019, mas não afirma que a troca teve essa causa. Quem precisar do motivo oficial deve consultar a Nota Informativa 103/2019.
O fumacê mata larva?
Não. O UBV aplica adulticida, que atinge apenas os mosquitos adultos que estão em voo durante a pulverização, como diz a Nota Técnica 1/2020. Criadouros e larvas pedem outras ações, como remoção mecânica, vedação dos depósitos e larvicida.
Quem fornece o inseticida ao município?
O Ministério da Saúde distribui o produto aos estados, e o pedido é feito pelo Sistema de Insumos Estratégicos (SIES), segundo a Nota Técnica 15/2023. Cada unidade da federação recebe um único inseticida de UBV, não os dois.
Fontes
- Cielo ULV: pré-qualificação de produto de controle vetorial, OMS, 2019
- Nota Técnica 1/2020-CGARB (inseticida Cielo-ULV), Ministério da Saúde, 2020
- Nota Técnica 15/2023-CGARB, Ministério da Saúde, 2023
- Nota Informativa 29/2024-CGARB (manejo da resistência do Aedes aegypti), Ministério da Saúde, 2024
- Nota Técnica 14/2025-CGARB (controle vetorial em localidades com febre amarela), Ministério da Saúde, 2025
- Declaração de rotulagem do Cielo ULV, OMS (pré-qualificação), 2021
- Fludora Co-Max: pré-qualificação de produto de controle vetorial, OMS, 2020
- Nota Técnica 5/2020-CGARB (Fludora Fusion, inseticida residual), Ministério da Saúde, 2020
- Monitoring and managing insecticide resistance in Aedes mosquito populations: interim guidance for entomologists, OMS, 2016
